terça-feira, 25 de junho de 2013

A santa ingenuidade de Marina Silva - Jornal Estadão

A santa ingenuidade de Marina Silva (ou ingênuos somos nós?)
25.junho.2013 12:29:51

Por Dener Giovanini

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva comemorou, nos últimos dias, as 500 mil assinaturas necessárias para a criação do seu partido Rede Sustentabilidade. Razões para festejar não faltam, e a principal delas está no fato de ter vencido a batalha pela adesão da população a nova agremiação partidária, que foi muito mais difícil do que sonhou Marina. Mesmo com os pesados investimentos em mobilização da militância nas mídias sociais, os resultados ficaram aquém do esperado. O cidadão Emiliano Magalhães Neto, autor da petição pedindo o impeachment do presidente do Senado, Renan Calheiros, fez muito mais bonito. Sozinho, ele amealhou 1,6 milhão de assinaturas.

E o sonho de Marina continua. Ela quer ser presidente da República e depositava suas esperanças numa decisão favorável do Supremo Tribunal Federal (STF) para declarar inconstitucional uma proposta – já aprovada na Câmara Federal – que restringe a criação de novos partidos. O bom Deus não atendeu as preces de Marina e a maioria dos ministros do STF se manifestou pela continuidade do andamento do projeto no Congresso Nacional. A aprovação no Senado é praticamente garantida. Com isso, o sonho de Marina míngua, pois seu Rede Sustentabilidade praticamente ficará sem direito a tempo na televisão e sem acesso ao Fundo Partidário, o caixa do governo que sustenta as agremiações políticas.

A ex-ministra, nascida e criada politicamente no Partido dos Trabalhadores (PT) foi a última palavra na área ambiental ao longo de quase todo o mandato do ex-presidente Lula. De 2003 a 2008, era ela a titular do ministério do Meio Ambiente (MMA). Durante toda a sua gestão, a sua presença ou a sua omissão, respaldou uma política devastadora para os recursos naturais brasileiros. Marina Silva sempre optou por gritar o silencio quando em suas mãos estavam projetos polêmicos, como a Usina de Belo Monte, a BR-163, o Código Florestal e a demarcação de terras indígenas, entre outros. Em seu ministério foram abrigadas muitas ONGs ambientais, que a ajudaram no coro silencioso, frente ao que se passava no país.

Ao deixar a esplanada dos Ministérios, Marina Silva tentou justificar sua decisão afirmando que o governo já não mais ouvia suas ponderações. A verdade é que ela nunca foi ouvida ou teve prestígio junto ao presidente. Basta lembrar que, logo no início dos seus dias ministeriais, o governo autorizou a importação de pneus usados da Europa, contrariando a recomendação do próprio MMA, assim como o fez em diversas outras oportunidades. Motivos para sair a ex-ministra tinha desde o primeiro ano da gestão do ex-presidente Lula. Se não o fez é por que tinha outros interesses. De qualquer forma, ela sempre teve consciência de que sua presença no ministério legitimava o que, publicamente, ela condenava.

A atuação de Marina Silva a frente do MMA teve, como principal marca, a lamúria. Ano após ano, ela lamentava alguns retrocessos ambientais do governo, como se oposição fosse. Entre um lamento e outro, conseguiu a façanha de praticamente extinguir o principal órgão federal de controle e fiscalização ambiental, o IBAMA. Marina, talvez buscando algo para se distrair, passou a tesoura ministerial na instituição. Picotou a credibilidade e a força do IBAMA ao criar o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e o Instituto Chico Mendes (ICMBIO). Esse processo de “descentralização”, promovido pela ministra, não serviu apenas para enfraquecer o IBAMA, se prestou também a criar muitos cargos na administração federal e a fomentar a desordem e as contradições na política ambiental brasileira.

O discurso de Marina Silva é bonito, simpático e politicamente quase correto. Ela diz o que as pessoas querem ouvir. Defende a sustentabilidade socioeconômica, a proteção da natureza e a revoada das andorinhas. Impossível alguém ser contra o seu discurso. Ela só não consegue convencer como fará para transformar seus sonhos em realidade. E o quase politicamente correto fica por conta das suas derrapadas quando os temas são mais sensíveis, como a pesquisa de células-tronco, o aborto e a união civil de homossexuais. Nesse momento, a Marina ambientalista e progressista duela com a Silva evangélica e conservadora. A solução para as saias justas tem sido jogar a responsabilidade para a plateia. Sempre buscando orientação bíblica quando confrontada com essas questões, Marina se inspira em Pôncio Pilatos e lava suas mãos, dizendo que vai convocar plebiscitos e deixar o povo decidir. Tomara que Jesus não resolva voltar durante o seu improvável governo, pois o risco dele parar na cruz novamente seria grande.

Marina diz que defende uma “nova política” e quer um partido para chamar de seu. Sua passagem pelo Partido Verde (PV) foi desastrosa. Foi recebida de braços abertos, mas a votação que recebeu nas últimas eleições presidenciais parece ter inflado o seu ego e o PV acabou por ficar pequeno demais. Ela já definiu os parâmetros que nortearão a construção da tal “nova política”, antecipando que não é de esquerda, nem de direita. Também afirmou que não é de situação e nem de oposição. Disse tudo o que não é, mas faltou dizer o que pretende ser.

O “Partido da Marina” (assim está se popularizando o Rede Sustentabilidade), trás em seu Estatuto, uma proibição expressa para o recebimento de doações de campanhas de empresas envolvidas com a produção de cigarros, armas, álcool e agrotóxicos. Mas não faz nenhuma referência às empresas que tenham seu nome envolvido em acusações de biopirataria e apropriação indébita dos conhecimentos de povos tradicionais. Será esse esquecimento proposital? Aqui cabe um longo, detalhado e futuro artigo específico sobre isso (aguardem). Também não proíbe as doações de empreiteiras, como aquelas que estão construindo Belo Monte, Angra 3 e outras obras polêmicas do ponto de vista ambiental. Parece que a “nova política” de Marina não será tão nova assim.

Criticar ou discordar de Marina Silva também não é bem visto pelos moderninhos de plantão. Esses enxergam nela uma vestal da modernidade, uma líder a guiar seu rebanho rumo a uma Canudos do terceiro milênio. É óbvio que Marina Silva não é a bruxa má do Norte, longe disso. Mas também não é nenhuma Cinderela, afinal, seus pezinhos de barro se quebrariam mesmo que calçasse os frágeis sapatinhos de cristal.

Fonte: Estadão